Santidade:Temporal ou Eterna?
Santidade:Temporal ou Eterna?
“Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” [Hb 12.14].
Primeiro, vamos definir a palavra santo, que quer dizer separado.
Como Deus é santo, Ele é separado de toda a Sua criação. Existe a idéia
errônea e antibíblica de que a criação é a extensão de Deus, como se
tudo o que veio a existir pelo poder da Sua palavra fizesse parte dEle.
Ora, esta visão é pagã, comumente chamada de panteísmo [grego: pan,
"tudo", + theós, "deus"], a qual define ser Deus o todo, e o todo Deus;
uma espécie de universalidade dos seres, onde o conjunto de todas as
criaturas [materiais e espirituais], a sua totalidade, compõem a unidade
de Deus. O problema desta doutrina é que a criação e o Criador se
confundem e se fundem, assim como o infinito e o finito, o material e o
espiritual, o que leva à idéia de que tanto um como o outro são
autocriados ou podendo ser criados por outra força. Mas toda essa
confusão é fruto de outra artimanha do maligno, sempre promovendo a
mentira, o qual “não se firmou na verdade, porque não há verdade nele.
Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é
mentiroso, e pai da mentira” [Jo 8.44]. A Bíblia nos revela o contrário:
toda a criação, seja o bem e o mal, material e espiritual, está
separada de Deus, não é uma “extensão” dEle, nem subsiste e vive nEle,
mas é sustentada e sobrevive por Ele.
Bem diferente do sistema proclamado pelos pagãos, anacrônico à
Bíblia: a criação existe, vive e se mantém pelo poder de Deus, segundo a
Sua vontade, nada além disso.
De certa forma, o entendimento errado dos atributos divinos leva até
mesmo cristãos a cogitarem inadvertidamente uma espécie de “panteísmo”. A
confusão está na incompreensão da doutrina da onipresença e
onisciência, que diz não haver lugar no universo onde Deus não esteja;
não que está a ocupar todo o espaço, visto estar fora dele, mas no
sentido de que tudo o que acontece, seja onde for, encontra-se diante de
Deus e é promovido por Ele; e de que também tem o conhecimento perfeito
de tudo, em seus mínimos detalhes, e nada pode escapar à Sua infinita
presença. Como o salmista diz: “Para onde me irei do teu espírito, ou
para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no
inferno a minha cama, eis que tu ali estás também” [Sl 139.7-8]. O que a
Escritura diz claramente é que Deus está em todos os lugares, não há
recôndito que não alcance, o que é diametralmente oposto à idéia de que
Ele é tudo, e tudo é Ele: “Porventura sou eu Deus de perto, diz o
Senhor, e não também Deus de longe? Esconder-se-ia alguém em
esconderijos, de modo que eu não o veja? diz o Senhor. Porventura não
encho eu os céus e a terra? diz o Senhor” [Jr 23.23-24].
Como Criador de todas as coisas, Ele conhece todo o processo
exaustivamente, desde o nascimento até a morte, da existência à
destruição, sendo que nada acontece sem que seja da Sua vontade ou
alheio a ela, “porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem o
invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?”
[Is 14.27]. O esclarecimento é necessário para não se ter dúvidas de que
Deus está separado da Sua criação, de que Ele não faz parte dela, mas
está aparte dela; de que são coisas distintas, ainda que a criação seja
completamente dependende de Deus e da Sua vontade, sem o que jamais
existiria ou sobreviveria.
Então Deus é e está separado de toda a criação, ainda que ela seja
consequência do Seu atributo de onipotência; porém como Deus é perfeito,
puro e justo, é distinto da criação, que não possui a perfeição, a
pureza e justiça divinas, sendo imperfeita, impura e injusta.
As obras de Deus não são Deus, ainda que existam por e para Deus,
logo, pertencentes e sujeitas a Ele [tanto para nascer, viver ou
morrer], sem que possam “contaminá-lO”, antes é o Senhor quem as
santifica ou não, segundo a Sua soberana vontade.
Por isso a Bíblia afirma que todos pecaram e destituídos estão da
glória de Deus [Rm 3.23]. Há uma separação natural entre o Criador e as
criaturas em virtude de suas naturezas distintas, agravada pelo pecado
[que torna as criaturas ainda mais distantes do Senhor], sendo que, do
ponto de vista temporal, Deus se aproximará daquelas que foram salvas
eternamente por Cristo, e jamais se achegará àquelas eternamente
destinadas à perdição.
Do ponto de vista atemporal, Deus sempre estará próximo do eleito,
mesmo que, no tempo, ele ainda não seja convertido; pois a salvação
aconteceu no tempo, mas foi decretada na eternidade. Graças a Ele,
Cristo, o Cordeiro sem pecado, o qual morreu na cruz e ressuscitou para
que os eleitos, diante de Deus, estivessem mais alvos e mais brancos do
que a neve [Sl 51.7], sem nenhuma mácula, santos como santo é o nosso
Deus, “porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo” [1Pe
1.16].
No tempo, a santidade se inicia na regeneração que o Espírito Santo
opera em nós, como a boa obra de Deus iniciada e que atingirá o ápice na
eternidade [Fp 1.6], quando o nosso corpo corruptível se transformar em
incorruptível, e formos semelhantes a Cristo nosso Senhor [1Co
15.52-53]; quando não haverá mais morte, nem pecado. Ele operará a
santidade através da incorruptível “palavra de Deus, viva, e que
permanece para sempre” [1Pe 1.23]. Portanto, o ser santo é algo
inalcançável para o homem, somente o Senhor é quem pode torná-lo e
fazê-lo separado do mundo, e ligado a Ele; tirados do meio da Sua
criação, de entre as criaturas corruptíveis, tornando-o filho adotivo em
Cristo, e assim será mantido pelo Seu poder e graça.
Eternamente, já somos salvos antes da fundação do mundo, muito antes
do nascimento e queda do primeiro homem, pois o decreto divino
estabeleceu que os eleitos, em número certo e definido, seriam tantos
quanto Deus escolheu, conheceu e predestinou para serem conforme a
imagem de Cristo [Rm 8.29]. Desta forma todos os eleitos [mesmo os que
ainda não foram regenerados no tempo] já são salvos e santos. Pode
parecer estranho que um homem em pecado, irregenerado, tenha comunhão
com Deus. A Bíblia diz que o Senhor abomina o pecado. Porém, como o
Espírito Santo faria uma obra de regeneração em um pecador? Haveria como
Deus ter comunhão com o ímpio? Segundo as Escrituras, não! A pergunta
é: em que ponto o homem deixa de ser ímpio? Como é possível ao homem
sair da esfera pecaminosa para a santa? Teríamos de concordar com os
arminianos de que somente após escolher a Deus o homem poderá ter
comunhão com Ele. Ou seja, a decisão humana o santifica ao ponto de ser
capaz de reconhecer em Cristo o seu salvador, e então, somente então,
ter o privilégio de comunhão com Deus. O que remeteria os méritos da
regeneração ao homem, não a Deus. Mas há uma profusão de textos bíblicos
que desmentem essa hipótese. Paulo diz: “Não há um justo, nem um
sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a
Deus.Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem
faça o bem, não há nem um só” [Rm 3.10-12].
O dilema persiste: o homem não pode se tornar santo nem Deus ter
comunhão com o pecador. Logo, Deus, que está fora do tempo, já nos tem
como santos, porque fomos santificados eternamente. Ao promulgar o
decreto eterno, sendo o Senhor imutável, e de que toda a Sua vontade se
realizará infalivelmente, “pois nenhum dos teus propósitos pode ser
impedido” [Jó 42.2], mesmo sem ainda existir, o eleito já está salvo, já
é santo. A vontade e decisão em eleger um povo para Si não aconteceu no
tempo, mas muito antes dEle criar o tempo. Também escolheu que o
processo ocorresse no tempo e, por nossas limitações, tomássemos
consciência da pecaminosidade natural, do estado degradante, da morte
iminente e incontestável, caso não tivesse nos escolhido. Pois a
santidade divina é que nos impede de permanecer no pecado, transformando
pecadores em santos aos nossos olhos, mas aos Seus olhos já fomos
santificados pelo sacrifício de Cristo, muito antes do Senhor morrer na
cruz.
A questão é de perspectiva: quando olhamos para nós mesmos, não temos
a visão do resultado [ainda que a Bíblia nos revele o fim de todo
eleito: a eternidade diante de Deus]. O fato de estarmos no tempo
revelará um encadeamento de situações, as quais serão reveladas
progressivamente, indicando o estado de regeneração ou de corrupção.
Mesmo assim, para muitos, será impossível conhecer o real estágio em que
se encontram, e o fim que os aguarda; apenas no dia do Juízo tomarão
conhecimento de que estavam mortos, e permanecerão mortos. Ao passo que,
para o Senhor, não somente os fatos, mas todo o fim já é do Seu
conhecimento. Como tudo ocorrerá segundo o Seu desejo, seguindo
rigorosamente o decreto eterno em que todos os detalhes foram
determinados, Deus conhece os Seus escolhidos, e já os tem por certo
como Seus. Ou seja, para nós, é um processo; para Deus, já está tudo
consumado.
Certo é que somos nós a alcançar a santidade [não é Deus quem a
alcança por nós; já que Ele é e sempre foi santo, e não precisa alcançar
nada, pois é e sempre foi o perfeito Senhor do universo]. Deus nos
capacita, nos habilita e transforma para sermos santos, constituindo-nos
o corpo do Seu Filho Amado, o qual é a cabeça. E assim seremos um com
todos os escolhidos, os quais são justificados exclusivamente por Deus. A
obra é dEle, mas nós é que somos feitos santos e mantidos santificados.
Assim, devemos sempre buscá-la, clamar ao Senhor que nos transforme a
cada dia, para que a boa obra seja concluída naquele dia.
E, ao fim, como o próprio Senhor disse, seremos um com Ele, assim
como o Pai é um com o Filho [Jo 17.21]; separados para Ele, por
intermédio dEle, para a Sua glória; definitivamente afastados do pecado,
da morte, da corrupção e do mal; o que não é panteísmo, mas
Cristianismo bíblico, por que as criaturas destinadas à perdição estarão
irremediavelmente separadas de Deus na eternidade, ao contrário de nós.
Alerta: nada do que disse seja mal-interpretado; a santidade é uma
obra completa de Deus nos eleitos, mas se o homem não é santo, e
despreza a santidade, não é eleito, nem “verá a vida, mas a ira de Deus
sobre ele permanece” [Jo 3.36].
Autor:
Jorge Fernandes Isah
Fonte: KÁLAMOS